Depois de 100 mil fazerem história, Vitória/ES vira cenário de guerra

Reportagem: Lucas Rezende ([email protected])

Vitória e Vila Velha se dividiram nesta quinta-feira (20) para integrar um dos 100 movimentos que parariam o Brasil naquela tarde. Um grupo, na cidade canela-verde, bloqueou o sentido Vila Velha-Vitória da Terceira Ponte aos gritos de “Vem pra rua”. No outro lado da pista, os motoristas no engarrafamento apitavam, buzinavam em apoio à manifestação, por volta das 16h.

A 9 km dali, na capital, mais uma multidão partiu da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Interditando a Avenida Fernando Ferrari e Nossa Senhora da Penha, quase 100.000 pessoas protestavam contra a criminalização dos movimentos sociais, o abuso de poder, aumento da passagem, clamando por mobilidade urbana e apoiando as vítimas de repressão e violência abusiva da polícia nas cidades que protestaram essa semana (SP, RJ, POA), de forma pacífica e ordeira.

No lado vindo de Vila Velha, havia a presença de um trio elétrico, contrariando o combinado de não utilizar carros de som. O acordo foi feito em assembleia realizada na terça-feira (18), que contou com cerca de 200 pessoas. “Esse trio vai conta uma deliberação realizada na assembleia. Esse carro pertence a membros políticos do PC do B, do grupo União de Juventude do partido”, disse o estudante da UFES, Nilson Santana.

O funcionário público Tadeu Guerzet, um dos lideres do movimento, recriminou a atitude de usar o trio. “Isso é obra de grupos partidários oportunistas na internet querendo colocar no bolso toda uma multidão”. O segundo ato, diferentemente do primeiro, chamou a atenção pela intensa participação de famílias e idosos. Dentre os presentes, estava o Sr. José Roberto, que lutou pelo Impeachment de Fernando Collor de Mello, e foi presidente da UNE no ano de 1975. Ele apontou as diferenças entre protestos depois de duas décadas. “Hoje em dia não temos partidos, temos ideal. A rede social é um novo canal de comunicação. Quero um país digno para quem vai nos suceder e a saída de Renan Calheiros do poder”, contou.

PARADAS ESTRATÉGIAS

Às 19h, os manifestantes chegaram na Assembleia Legislativa do Espírito Santo. Por lá, 14 policiais militares faziam um cordão de isolamento na frente da entrada principal. Dentro da ALES, a tropa de choque aguardava para agir perante qualquer exaltação do movimento.

Um grupo mais exaltado, localizado bem próximo aos militares, jogou quatro pedras contra o vidro da Assembleia e dois rojões foram tacados, despertando a vaia de manifestantes de bem, clamando por um ato “sem violência”.

Logo em seguida, o protesto seguiu para o Tribunal de Justiça do ES, onde o Desembargador Pedro Valls Feu Rosa aguardava os manifestantes para uma conversa aberta. Um grupo de negociadores conseguiu marcar uma reunião na próxima segunda-feira (24), às 14h para apresentar propostas do movimento. Em entrevista, um dos líderes afirmou a solicitação de tarifa zero para quem anda de ônibus em pé e um transporte público exclusivo para as mulheres.

Uma outra ala de líderes do movimento, representando a Universidade Federal do Espirito Santo, entregou uma pauta ao Desembargador solicitando os pontos cruciais do grupo.

 

CONFUSÃO

Grupos de vândalos infiltrados no movimento, simultaneamente a conversa com o Desembargador, ateava pedras nos vidros do TJ e rojões dentro da ALES, enfrentando a Tropa de Choque. A estrutura de fora do Tribunal foi depredada. Os vândalos que seguiam depredando placas e vidros eram contidos pela ala tranquila do movimento, causando estranhamento e briga entre os próprios manifestantes.

Com a violência se intensificando, pichações foram realizadas na parede do Tribunal juntamente com rojões para quebrar o vidro da entrada principal. Com bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e spray de pimenta, policiais subiram ao terraço do TJ para conter as depredações. Em resposta, vândalos atearam fogo em um objetivo e direcionaram à PM.

A Tropa de Choque saiu de dentro do Tribunal para conter os atos de violência fora da casa de justiça. Em contrapartida, os vândalos seguiram para a Praça do Pedágio da Terceira Ponte, onde queimaram cabines de cobrança, furtaram doações dos motoristas e invadiram a sede administrativa da concessionária que administra a via.

Manifestantes e vândalos se enfrentaram em cima da Ponte e receberam balas de borracha da polícia para promover a ordem. Uma loja de perfumes da “O Boticário” foi invadida e saqueada na Enseada do Suá. A professora Jane Lopes presenciou a ação da Tropa de cima da Terceira Ponte. “Havia uns manifestantes na parte de trás do TJ, que foram retirados pela polícia. Da ponte, pessoas jogavam garrafas e xingavam a ação. Em seguida, vândalos derrubaram uma guarita da polícia próxima ao local. Eles foram reprimidos com balas de borracha.”

Amanhã (21), os veículos que trafegarem sob a Ponte não irão pagar pedágio devido a quebradeira. O Tribunal de Justiça, por sua vez, com nota à imprensa, informou que o vandalismo foi realizado por uma minoria.

“Nesta data, 20/06, o presidente do Tribunal de Justiça, Desembargador Pedro Valls Feu Rosa, recebeu os manifestantes que clamam por um novo pacto republicano. Assim o fez por considerar, a uma, que a voz das ruas merece o máximo respeito por parte das autoridades constituídas, e, a duas, ser dever do Tribunal de Justiça colocar-se à disposição da Sociedade na busca por um país mais justo.

Considerada esta realidade, em reverência ao notável espírito público demonstrado ao longo das manifestações, o Tribunal de Justiça, representado pelo seu presidente, entende não ser cabível qualquer manifestação de caráter individual – que seja este, belo em seu caráter anônimo, unicamente um augusto momento de exercício de cidadania.

Finalmente, o Tribunal de Justiça registra que eventuais atos isolados de vandalismo não representam absolutamente a intenção dos manifestantes – a eles, nossa solidariedade.”

Por volta de 00h, a Ponte foi liberada e o cenário de caos despediu-se de Vitória, mesmo depois de uma multidão fazer história em prol da democracia.

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