‘Somos todos vítimas’, diz piloto de balão que caiu na Capadócia

O piloto do balão que caiu na Capadócia na semana passada, matando três brasileiras e ferindo outras 22 pessoas, diz acreditar que ele e os passageiros foram “vítimas de uma infeliz tragédia”, ocasionada por “distração” do balonista que voava por cima.

Em entrevista por e-mail à BBC Brasil, o português Rodrigo Neves, que ainda tem dificuldades para falar por causa dos ferimentos que sofreu na boca, afirmou que o acidente foi o primeiro “em 16 anos de experiência profissional”. Ele teve alta do hospital na última sexta-feira, dia 24 de maio.

“Tenho claro que este acidente não tinha que ter acontecido e era totalmente inevitável. Aconteceu por total distração do piloto que voava por cima”, afirmou.

“Mas o pior já passou e agora toca a todos devemos ser fortes e nos recuperarmos das feridas do acidente. Entre passageiros e piloto somos todos vítimas deste infeliz acidente e temos de nos manter unidos e confiantes na nossa recuperação física e psicológica.”

Na última segunda-feira, um balão com turistas brasileiros, espanhóis e argentinos caiu na região da Capadócia, na Turquia, ponto de encontro internacional de balonismo. Três brasileiras, Ellen Kopelman, de 81 anos, Marina Rosas, de 77 anos e Maria Luiza Góes, de 85 anos, morreram no acidente.

Segundo Neves, o balão voava a uma altitude de cerca de 500 metros do solo quando foi atingido no topo pela cesta de outro balão “sem qualquer pré-aviso”. A colisão teria provocado um rasgo de 15 metros no tecido, de acordo com o piloto.

“Como consequência, nosso balão perdeu parte do ar quente que o sustentava e começou a descer sem parar. Acabamos por bater no chão na vertical a uns 50 km/h”, relembra.

Neves diz que “tudo aconteceu em poucos segundos”. Ao perceber que o balão despencava, ele afirma ter ligado os dois queimadores “para compensar a perda de ar quente e tentar travar a descida”. Logo sem seguida, deu instruções a todos os passageiros.

A recomendação, segundo o piloto, era ficar com os joelhos flexionados e segurar nas cordas com as duas mãos.

“Dei instruções a todos os passageiros para como se preparar para o inevitável embate no solo e se tentarem proteger ao máximo de possíveis ferimentos. Todos participaram e obeceram às minhas instruções”.

A versão de Neves contrasta com a da brasileira Vera Monteiro, que estava no balão. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, ela afirmou que quando questionou o piloto sobre o que tinha acontecido momentos após a colisão, Neves teria dito que “não tinha acontecido nada”.

Monteiro, entretanto, confirmou ao jornal as recomendações dadas por ele. “Depois ele (Neves) mandou a gente abaixar e segurar nas argolas (na parte interna do cesto)”.

Preferência

Rodrigo Neves | Arquivo pessoal

Neves diz não ter recebido comunicação de piloto que sobrevoava seu balão

Neves diz que houve “distração” do piloto que voava por cima e provocou a colisão, uma vez que, segundo ele, o balão que voa por cima tem o dever de avisar por rádio ou manter-se a uma distância de segurança do que voa por baixo.

“Os balões que estão por baixo de outros não têm qualquer visibilidade para cima pois o seu próprio balão tapa a sua visão vertical. Por isso o balão de cima tem de reagir e informar o balão de baixo do possível perigo”, afirmou.

“Quero acreditar que o piloto do balão em cima estava distraído e nem sequer se apercebeu que se aproximava de um balão que voava por baixo dele. Por isso não fui chamado pelo rádio nem o balão voando sobre mim fez qualquer tentativa para evitar a colisão”, acrescentou.

Na semana passada, em entrevista à BBC Brasil, o dono da empresa Anatolian Balloons, que operava o balão pilotado por Neves, já havia recorrido ao mesmo argumento e isentado o piloto de culpa.

Balões só possuem dirigibilidade vertical; sua direção é definida pelos ventos.

Por essa razão, regras internacionais preveem que a preferência é de quem voa por baixo, uma vez que o piloto não consegue enxergar o que está sobre ele.

Neves afirma que já se encontrou com todos os passageiros do balão que ainda estão internados para “dar-lhes todo o apoio necessário”.

“A empresa (Anatolian Ballons) também está ajudando financeiramente a trazer familiares dos passageiros acidentados dos seus países aqui para a Turquia”.

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